Menina
que me fita
com olhos garços
entrelaçando
com teu laço
nossos dedos
percorrendo
meus medos,
planta a semente
veemente
no berço frutífero
de sapho.

You know why?
Menina
que me fita
com olhos garços
entrelaçando
com teu laço
nossos dedos
percorrendo
meus medos,
planta a semente
veemente
no berço frutífero
de sapho.

Sou de uma espécie
quase extinta
que a sina
é morrer pelas extremidades.
O veneno entra
pelos poros
da pele
pelo toque
e apenas os olhos
podem delatar o ataque,
dilatados e transbordando,
contraditoriamente
clamando o abraço.
Olhos inchados e avermelhados
que o pintor desavisado
pintou pensando ser
o céu estriado
do pôr do sol.
Aqui onde tudo se perde, onde o modesto não se mede, onde o céu engole a terra.
Aqui onde o coração bate, bate, bate..
...marcando o compasso, contando os paços
de meu caminho.
Aqui onde o vento faz a curva fugindo do marasmo, mas que,
pra evitar o cansaço,
vai... de... man...si...nho...
Aqui onde costuro o destino, bordo, alinhavo,
até que bate o tédio e desmancho.
Aqui onde perco, acho, quebro;
concerto, arrumo, desencanto.
Aqui onde o trovão sacode a janela e o relâmpago clareia o quarto.
Aqui onde a tatuagem com o nome dela sai do peito e fica no retrato.
Aqui onde o médico diagnostica um abscesso.
Aqui onde meu corpo cai e desfalece.
Aqui onde me deito, fincando as mãos no chão pra ter mais coragem.
Aqui onde me deito e faço uma prece.
É aqui onde o que se mata morre incerto.
E o vivo,
...

o vivo não sabe se merece.
A gralha que gargalha calculista
Fita meus olhos turvos em segredo
Sorrateira, os inunda com o medo
Que transborda na gota derrotista
O silêncio sufoca, derradeiro
E a gralha mata o anestesista:
O grito - que some sem deixar pista.
Levo as mãos à boca em desespero
É música no bico desse artista
Que geme e grasna e grita um pesadelo
De visões desgraçadas que eu mereço
Forço os olhos abertos – estremeço.
É estrela dessa orquestra, é solista
A gralha que gargalha calculista.

Em uma tentativa vil de desvirginar o labirinto que suga a humanidade
Meti minhas mãos naquela frívola multidão
Mas em vez de encontrar a alma que o corpo inunda
Rasguei vísceras de sangue pérfido e grosso
Uma corrente horrenda dotada de um monocromatismo monstruoso
Uma mistura de tons naquela universal vermelhidão
Em monólogos absortos, mas angelicais
Escalei as muralhas dos inconscientes
Mas esse silencio, esse mistério me impede de subir mais e mais
E agora esse corvo gargalha nos meus umbrais, convulso
E a noite funciona como um firme pulso
Onde me perdi na obsessão que em minha alma também um fígado sangrava
Que em minha alma também uma garganta gemia
E vi meu corpo coberto de desgraça
Na incerteza do que e do que não havia.
23/05/05
Apesar dos Outros que insistem no que está certo ou errado, eu não conseguiria viver sempre de dia, separando as noites pra dormir. Não poderia viver nesse mundo cego surdo-mudo perturbado, no qual o calor do asfalto é o mais quente que conseguem sentir. Sou feliz assim: sonhando acordada e dançando e brindando à noite, até a sola do sapato cair!
Recife, 25 de março de 2010.
Querido,
Peguei minhas sapatilhas de primeira comunhão e pintei de rosa. O resto da tinta joguei pela janela, calçada a fora. A tinta escorreu, pintou as ruas; e foram minhas mãos sujas que pintaram as tuas. Tirei de mim o marasmo e a apatia, deixei pra ti só meu bem e poesia. Com a tinta ainda fresca, as sapatilhas eu calcei e o vestido que vestia, tirei. Andei, sem medo, pelas ruas que, agora cor de rosa, refletiam seus tons em mim. Eu, branca nua, enrubesci, mas não por vergonha ou embaraço. Ruborizei com o sangue que pulsava com teu pulsar naquele beijo que te dei.
Com amor,