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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Puella

Menina

que me fita

com olhos garços

entrelaçando

com teu laço

nossos dedos

percorrendo

meus medos,

planta a semente

veemente

no berço frutífero

de sapho.



quinta-feira, 10 de março de 2011

Catarina tremia, incerta

Catarina tremia, incerta. Estava estranha, diferente. Desistira, não encontrava mais forças para lutar. Ou finalmente as encontrara? Não importa. Olhando-se no espelho um tanto empoeirado decidia-se pouco a pouco. E Catarina tremia, precisa. Uma grande ideia para um novo começo: umedeceu uma camiseta velha e limpou o espelho. Agora sim. Sabia que ele não era culpado, mas agora sim Catarina se via com clareza. Certa, ligou para ela:

- Preciso que você venha. Preciso que você venha e traga o que me inunde. Preciso que você traga o calor, que traga o brilho. Preciso ser aquecida, iluminada. Venha e traga o segredo para que eu me sinta bem ao menos essa noite. Venha e traga isso que me faz rir ao mesmo tempo em que arrepia e formiga e umedece e faz querer.

...

Já era noite quando ela chegou à casa de Catarina. Tocou a campainha. Ela era linda. Do tipo engraçada, do tipo intelectual, do tipo amiga, do tipo sexy, do tipo perfeita. E estava mais linda, do jeito que se faz quando se quer estar. Os olhos de Catarina brilharam. E eles imploravam de um jeito tão avassalador que o que fora pedido fosse fato que ela entendeu que aquilo precisava ser feito. E rápido:

- Gata, trouxe esse livro de Hilda Hilst que ganhei de amigo secreto no natal. Agora vou indo, ele me ligou e a noite hoje promete.

Deu as costas e saiu.

Catarina, desnorteada, começou a ler. Catarina até riu e quando sentiu um leve formigamento deitou-se e o colocou entre as pernas. Pensou:

- É, serve.

sábado, 17 de julho de 2010

Ela não podia.

Não queiram me dizer o motivo de eu estar aqui, sozinha. Vocês não sabe quem sou, nem o que aconteceu.

Mas Catarina é minha pseudo-liberdade, meu porto. Só que estou aqui, embriagada de ternuras recordadas. Sofrendo com essa ressaca na minha almoceanica não pacífica. Meu coração desritmado, enfurecido e danificado queima. Eu sei que Catarina não é justa ao me penetrar com seus olhos. Catarina não é justa ao me penetrar com seus olhos.

Não é.



Ela não podia.

sábado, 5 de junho de 2010

Bodas de Beijinhos

 




"Um café e um amor, quentes por favor"(c.f.a.) ?

Não, só um café. Um amor eu já tenho.

 




"And if you only hold me tight

We'll be holding on forever"





domingo, 25 de abril de 2010

Just happy.

Recife, 25 de março de 2010.

Querido,


Peguei minhas sapatilhas de primeira comunhão e pintei de rosa. O resto da tinta joguei pela janela, calçada a fora. A tinta escorreu, pintou as ruas; e foram minhas mãos sujas que pintaram as tuas. Tirei de mim o marasmo e a apatia, deixei pra ti só meu bem e poesia. Com a tinta ainda fresca, as sapatilhas eu calcei e o vestido que vestia, tirei. Andei, sem medo, pelas ruas que, agora cor de rosa, refletiam seus tons em mim. Eu, branca nua, enrubesci, mas não por vergonha ou embaraço. Ruborizei com o sangue que pulsava com teu pulsar naquele beijo que te dei.



Com amor,

Catarina.






sábado, 3 de abril de 2010

Eyes


Essa Indiferença sempre aterrorizou Catarina
mais que o desprezo, mais que a repulsa.



A Indiferença é uma pedra que, embora pedra, pulsa e vibra.
Uma pedra açoitada por musgos e cobras-cegas.
Uma pedra que se faz inerte, ainda que orgânica, que finge e se deixa sabotar.
É a
alma em estado vegetativo, na margem do ser, pronta para a queda.
É o coma dos Sentires, que mantém o Querer anestesiado e preserva-o refém dos dedos firmes que envolvem o chicote.
É a
faca apática, fina e oportuna, que pressiona até romper. Rompe e deixa brotar o córrego que se esvai até o fim.

Combate subaquático. Desesperado, porém surdo.
Arroxeia as extremidades e retarda os batimentos cardíacos.






Cansada, Catarina se vê afrontada,
quase sem forças, nessa batalha sem futuro
pelos olhos dele nos dela.







sábado, 27 de março de 2010

Run

“Desfile em direção à tua coroação.”

Ordenava Catarina com seus lábios torcidos.


Aceite a esmola que te dão de bom grado. Feche teus olhos e receba o beijo enojado do carrasco.

Mas não se permita o abate. Não se deixe cair.



Pule.






Seguiu de rosto erguido até o cadafalso.







terça-feira, 2 de março de 2010

Anger

Seus olhos castanhos, tão serenos, nublaram.
Nuvens pesadas anunciavam a tempestade.
Chuva que, em contraste com a luz do quarto,
deixava aqueles olhos com um brilho tão singular,
tão majestoso.
















Quem fitasse os olhos de Catarina naquele momento único, teria a sensação de estar contemplando a rosácea da capela de Sainte-Chapelle em uma tarde de garoa.

Gota após gota molhava os vitrais. A primeira, mais pesada e orvalhada, transbordou e mais que depressa foi arrancada com um gesto ríspido e intolerante.

O dilúvio chegara. A tarde se fez noite e o sol não mais cruzava os vidros.

Era a fraqueza que escorria pelo rosto de Catarina, era a desonra destacada em meio ao ódio. Era o olhar que, mesmo cego pela escuridão, forçava um pequeno feixe de humanidade.

O Ciclone da Cólera. O mais poderoso e devastador e ditatorial dos demônios. Era a raiva animalesca que excitava Catarina a esmurrar as paredes até que todos os ossos das mãos estivessem completamente estilhaçados. (Se conteve, pois o instinto de preservação implorou por clemência.)


Catarina acovardava-se. Reservava o direito de externar o ódio a apenas aos de bravura. Aos de coragem para revidar. Mas Catarina era covarde. Cerrava os olhos enquanto segurava a respiração.

Asfixia. Força. Arrisca tudo para engolir o gênio da fúria.

E esse monstro cresce dentro de Catarina a cada mordida.



Perverte.

Corrompe.

Apodrece.



E se alimenta dos vermes que cultuam

o esterco sanguíneo que pulsa irrequieto

por entre os vasos rasos do rosto de Catarina.








terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Flow


O espelho não deixava margem para mentiras.

Catarina estava deslumbrante.

Acordou naquele dia com uma sensação inexplicável de serenidade.






Acordara há pouco e já estava de saída. Eu tinha essa certeza, era seu costume acordar às 07h20min, todos os dias, religiosamente. Não eram 08h quando, da minha janela, observei Catarina se distanciando. Estava encantadora. Usava um vestido de verão com um charmoso chapéu. Provavelmente seria para se proteger do sol, entretanto, em Catarina, se transformava em uma arma.

Sem perceber, Catarina atira contra mim a cada passo firme dado. Lança projéteis revestidos de dourado em minha direção. Estraçalha meus braços, pernas, tórax, rosto. Minha carne, rente aos ossos, não suporta mais os bombardeios.





Baderna de sentimentos em um coração dilacerado.
Fraco, pulsa ritmado, na mesma frequência dos tiros.
Anseia a trégua pela sobrevivência.
Esquece que, sem esse marca-passo, a sobrevivência se torna ilusão.


"Absorve um oceano de pedras, mas não deixa naufragar a célula que te deu origem."






quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Satisfaction


Catarina decidiu que se permitiria viver.

Finalmente soltou os cabelos. Pegou uma tesoura qualquer e parou em frente ao espelho do banheiro. Separou a franja que, sem cuidado, estava embaraçada e já cobria todo o rosto, no qual apenas o queixo de Catarina permanecia visível. Decidiu que iria abrir a cortina pesada que bloqueava o sol que lutava para entrar janela adentro. Juntou os fios e, com a mão mais firme do que muitos cavaleiros empunhando suas espadas, cortou. Um corte único, reto, na altura das sobrancelhas. Sentiu-se leve. Correu para o banho. Embaixo do chuveiro, cantava:







A leveza se transformava em satisfação.


Será a satisfação uma das peças, talvez a primeira, na construção da Felicidade?







terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Sapless

Pálida, Catarina deitava, mas não dormia.




De seus poros dilatados escapavam gênios.
Libertos, regiam cultos aos seus deuses:

Inquietude,
Transtorno,
Fracasso.



Seu sol não brilhava, a cortina encobria.
Catarina se escondia por baixo de uma multidão de pensamentos. Refletia. Tramava. Trapaceava com o próprio querer. Catarina desejava, mas temia.

Tentava, alucinava, mas não sentia.
Catarina fechou os olhos, mas de jeito algum dormia.
Tudo nublava, nada se via.



"Ela não vê, não sente que está preparando um veneno..."
(Os sofrimentos do jovem Werther - Goethe)