Menina
que me fita
com olhos garços
entrelaçando
com teu laço
nossos dedos
percorrendo
meus medos,
planta a semente
veemente
no berço frutífero
de sapho.

You know why?
Menina
que me fita
com olhos garços
entrelaçando
com teu laço
nossos dedos
percorrendo
meus medos,
planta a semente
veemente
no berço frutífero
de sapho.


- Preciso que você venha. Preciso que você venha e traga o que me inunde. Preciso que você traga o calor, que traga o brilho. Preciso ser aquecida, iluminada. Venha e traga o segredo para que eu me sinta bem ao menos essa noite. Venha e traga isso que me faz rir ao mesmo tempo em que arrepia e formiga e umedece e faz querer.
...
Já era noite quando ela chegou à casa de Catarina. Tocou a campainha. Ela era linda. Do tipo engraçada, do tipo intelectual, do tipo amiga, do tipo sexy, do tipo perfeita. E estava mais linda, do jeito que se faz quando se quer estar. Os olhos de Catarina brilharam. E eles imploravam de um jeito tão avassalador que o que fora pedido fosse fato que ela entendeu que aquilo precisava ser feito. E rápido:
- Gata, trouxe esse livro de Hilda Hilst que ganhei de amigo secreto no natal. Agora vou indo, ele me ligou e a noite hoje promete.
Deu as costas e saiu.
Catarina, desnorteada, começou a ler. Catarina até riu e quando sentiu um leve formigamento deitou-se e o colocou entre as pernas. Pensou:
- É, serve.
Não queiram me dizer o motivo de eu estar aqui, sozinha. Vocês não sabe quem sou, nem o que aconteceu.
Mas Catarina é minha pseudo-liberdade, meu porto. Só que estou aqui, embriagada de ternuras recordadas. Sofrendo com essa ressaca na minha almoceanica não pacífica. Meu coração desritmado, enfurecido e danificado queima. Eu sei que Catarina não é justa ao me penetrar com seus olhos. Catarina não é justa ao me penetrar com seus olhos.
Não é.
Ela não podia.
Recife, 25 de março de 2010.
Querido,
Peguei minhas sapatilhas de primeira comunhão e pintei de rosa. O resto da tinta joguei pela janela, calçada a fora. A tinta escorreu, pintou as ruas; e foram minhas mãos sujas que pintaram as tuas. Tirei de mim o marasmo e a apatia, deixei pra ti só meu bem e poesia. Com a tinta ainda fresca, as sapatilhas eu calcei e o vestido que vestia, tirei. Andei, sem medo, pelas ruas que, agora cor de rosa, refletiam seus tons em mim. Eu, branca nua, enrubesci, mas não por vergonha ou embaraço. Ruborizei com o sangue que pulsava com teu pulsar naquele beijo que te dei.
Com amor,
Essa Indiferença sempre aterrorizou Catarinamais que o desprezo, mais que a repulsa.
Cansada, Catarina se vê afrontada,quase sem forças, nessa batalha sem futuropelos olhos dele nos dela.

Quem fitasse os olhos de Catarina naquele momento único, teria a sensação de estar contemplando a rosácea da capela de Sainte-Chapelle em uma tarde de garoa.
Gota após gota molhava os vitrais. A primeira, mais pesada e orvalhada, transbordou e mais que depressa foi arrancada com um gesto ríspido e intolerante.
O dilúvio chegara. A tarde se fez noite e o sol não mais cruzava os vidros.
Era a fraqueza que escorria pelo rosto de Catarina, era a desonra destacada em meio ao ódio. Era o olhar que, mesmo cego pela escuridão, forçava um pequeno feixe de humanidade.
O Ciclone da Cólera. O mais poderoso e devastador e ditatorial dos demônios. Era a raiva animalesca que excitava Catarina a esmurrar as paredes até que todos os ossos das mãos estivessem completamente estilhaçados. (Se conteve, pois o instinto de preservação implorou por clemência.)
Catarina acovardava-se. Reservava o direito de externar o ódio a apenas aos de bravura. Aos de coragem para revidar. Mas Catarina era covarde. Cerrava os olhos enquanto segurava a respiração.
Asfixia. Força. Arrisca tudo para engolir o gênio da fúria.
E esse monstro cresce dentro de Catarina a cada mordida.

Perverte.
Corrompe.
Apodrece.
E se alimenta dos vermes que cultuam
o esterco sanguíneo que pulsa irrequieto
por entre os vasos rasos do rosto de Catarina.

O espelho não deixava margem para mentiras.Catarina estava deslumbrante.
Acordou naquele dia com uma sensação inexplicável de serenidade.
Acordara há pouco e já estava de saída. Eu tinha essa certeza, era seu costume acordar às 07h20min, todos os dias, religiosamente. Não eram 08h quando, da minha janela, observei Catarina se distanciando. Estava encantadora. Usava um vestido de verão com um charmoso chapéu. Provavelmente seria para se proteger do sol, entretanto, em Catarina, se transformava em uma arma.
Sem perceber, Catarina atira contra mim a cada passo firme dado. Lança projéteis revestidos de dourado em minha direção. Estraçalha meus braços, pernas, tórax, rosto. Minha carne, rente aos ossos, não suporta mais os bombardeios.
"Absorve um oceano de pedras, mas não deixa naufragar a célula que te deu origem."

Inquietude,
Transtorno,
Fracasso.