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domingo, 26 de junho de 2011

Olhos.


Sou de uma espécie

quase extinta

que a sina

é morrer pelas extremidades.

O veneno entra

pelos poros

da pele

pelo toque

e apenas os olhos

podem delatar o ataque,

dilatados e transbordando,

contraditoriamente

clamando o abraço.

Olhos inchados e avermelhados

que o pintor desavisado

pintou pensando ser

o céu estriado

do pôr do sol.


sábado, 4 de junho de 2011

A menina


Tão clara a meninalvorada.

Tão calma a triste menina.
Temia a luz
Sem atinar a cilada.
Tão magra a meninaçoitada.
Tão cheia de nada.
Desatina na chuva
A cada pedalada.

Chicote inesperado rompe a neblina.



sábado, 30 de abril de 2011

Aqui.

Aqui onde tudo se perde, onde o modesto não se mede, onde o céu engole a terra.


Aqui onde o coração bate, bate, bate..

...marcando o compasso, contando os paços

de meu caminho.


Aqui onde o vento faz a curva fugindo do marasmo, mas que,

pra evitar o cansaço,

vai... de... man...si...nho...


Aqui onde costuro o destino, bordo, alinhavo,

até que bate o tédio e desmancho.

Aqui onde perco, acho, quebro;

concerto, arrumo, desencanto.


Aqui onde o trovão sacode a janela e o relâmpago clareia o quarto.

Aqui onde a tatuagem com o nome dela sai do peito e fica no retrato.


Aqui onde o médico diagnostica um abscesso.

Aqui onde meu corpo cai e desfalece.

Aqui onde me deito, fincando as mãos no chão pra ter mais coragem.

Aqui onde me deito e faço uma prece.

É aqui onde o que se mata morre incerto.

E o vivo,



...





o vivo não sabe se merece.





sábado, 26 de fevereiro de 2011

A gralha que gargalha calculista


A gralha que gargalha calculista

Fita meus olhos turvos em segredo

Sorrateira, os inunda com o medo

Que transborda na gota derrotista


O silêncio sufoca, derradeiro

E a gralha mata o anestesista:

O grito - que some sem deixar pista.

Levo as mãos à boca em desespero


É música no bico desse artista

Que geme e grasna e grita um pesadelo

De visões desgraçadas que eu mereço


Forço os olhos abertos – estremeço.

É estrela dessa orquestra, é solista

A gralha que gargalha calculista.




quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

المثالي



Em uma tentativa vil de desvirginar o labirinto que suga a humanidade

Meti minhas mãos naquela frívola multidão

Mas em vez de encontrar a alma que o corpo inunda

Rasguei vísceras de sangue pérfido e grosso

Uma corrente horrenda dotada de um monocromatismo monstruoso

Uma mistura de tons naquela universal vermelhidão


Em monólogos absortos, mas angelicais

Escalei as muralhas dos inconscientes

Mas esse silencio, esse mistério me impede de subir mais e mais


E agora esse corvo gargalha nos meus umbrais, convulso

E a noite funciona como um firme pulso

Onde me perdi na obsessão que em minha alma também um fígado sangrava

Que em minha alma também uma garganta gemia

E vi meu corpo coberto de desgraça

Na incerteza do que e do que não havia.




23/05/05



sábado, 17 de julho de 2010

Ela não podia.

Não queiram me dizer o motivo de eu estar aqui, sozinha. Vocês não sabe quem sou, nem o que aconteceu.

Mas Catarina é minha pseudo-liberdade, meu porto. Só que estou aqui, embriagada de ternuras recordadas. Sofrendo com essa ressaca na minha almoceanica não pacífica. Meu coração desritmado, enfurecido e danificado queima. Eu sei que Catarina não é justa ao me penetrar com seus olhos. Catarina não é justa ao me penetrar com seus olhos.

Não é.



Ela não podia.

sábado, 3 de abril de 2010

Eyes


Essa Indiferença sempre aterrorizou Catarina
mais que o desprezo, mais que a repulsa.



A Indiferença é uma pedra que, embora pedra, pulsa e vibra.
Uma pedra açoitada por musgos e cobras-cegas.
Uma pedra que se faz inerte, ainda que orgânica, que finge e se deixa sabotar.
É a
alma em estado vegetativo, na margem do ser, pronta para a queda.
É o coma dos Sentires, que mantém o Querer anestesiado e preserva-o refém dos dedos firmes que envolvem o chicote.
É a
faca apática, fina e oportuna, que pressiona até romper. Rompe e deixa brotar o córrego que se esvai até o fim.

Combate subaquático. Desesperado, porém surdo.
Arroxeia as extremidades e retarda os batimentos cardíacos.






Cansada, Catarina se vê afrontada,
quase sem forças, nessa batalha sem futuro
pelos olhos dele nos dela.







sábado, 27 de março de 2010

Run

“Desfile em direção à tua coroação.”

Ordenava Catarina com seus lábios torcidos.


Aceite a esmola que te dão de bom grado. Feche teus olhos e receba o beijo enojado do carrasco.

Mas não se permita o abate. Não se deixe cair.



Pule.






Seguiu de rosto erguido até o cadafalso.