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sábado, 17 de julho de 2010

Ela não podia.

Não queiram me dizer o motivo de eu estar aqui, sozinha. Vocês não sabe quem sou, nem o que aconteceu.

Mas Catarina é minha pseudo-liberdade, meu porto. Só que estou aqui, embriagada de ternuras recordadas. Sofrendo com essa ressaca na minha almoceanica não pacífica. Meu coração desritmado, enfurecido e danificado queima. Eu sei que Catarina não é justa ao me penetrar com seus olhos. Catarina não é justa ao me penetrar com seus olhos.

Não é.



Ela não podia.

sábado, 3 de abril de 2010

Eyes


Essa Indiferença sempre aterrorizou Catarina
mais que o desprezo, mais que a repulsa.



A Indiferença é uma pedra que, embora pedra, pulsa e vibra.
Uma pedra açoitada por musgos e cobras-cegas.
Uma pedra que se faz inerte, ainda que orgânica, que finge e se deixa sabotar.
É a
alma em estado vegetativo, na margem do ser, pronta para a queda.
É o coma dos Sentires, que mantém o Querer anestesiado e preserva-o refém dos dedos firmes que envolvem o chicote.
É a
faca apática, fina e oportuna, que pressiona até romper. Rompe e deixa brotar o córrego que se esvai até o fim.

Combate subaquático. Desesperado, porém surdo.
Arroxeia as extremidades e retarda os batimentos cardíacos.






Cansada, Catarina se vê afrontada,
quase sem forças, nessa batalha sem futuro
pelos olhos dele nos dela.







sábado, 27 de março de 2010

Run

“Desfile em direção à tua coroação.”

Ordenava Catarina com seus lábios torcidos.


Aceite a esmola que te dão de bom grado. Feche teus olhos e receba o beijo enojado do carrasco.

Mas não se permita o abate. Não se deixe cair.



Pule.






Seguiu de rosto erguido até o cadafalso.







terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Flow


O espelho não deixava margem para mentiras.

Catarina estava deslumbrante.

Acordou naquele dia com uma sensação inexplicável de serenidade.






Acordara há pouco e já estava de saída. Eu tinha essa certeza, era seu costume acordar às 07h20min, todos os dias, religiosamente. Não eram 08h quando, da minha janela, observei Catarina se distanciando. Estava encantadora. Usava um vestido de verão com um charmoso chapéu. Provavelmente seria para se proteger do sol, entretanto, em Catarina, se transformava em uma arma.

Sem perceber, Catarina atira contra mim a cada passo firme dado. Lança projéteis revestidos de dourado em minha direção. Estraçalha meus braços, pernas, tórax, rosto. Minha carne, rente aos ossos, não suporta mais os bombardeios.





Baderna de sentimentos em um coração dilacerado.
Fraco, pulsa ritmado, na mesma frequência dos tiros.
Anseia a trégua pela sobrevivência.
Esquece que, sem esse marca-passo, a sobrevivência se torna ilusão.


"Absorve um oceano de pedras, mas não deixa naufragar a célula que te deu origem."






quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Do início da obsessão.

Masmorra.



Viviam a espalhar que Catarina não tinha ambições. Eu, francamente, não entendo o motivo que fez essa gente pensar assim, já que – para mim – Catarina sempre teve o Querer correndo dentro de si. Caro leitor, eu sei que se visse Catarina se apaixonaria por ela da mesma forma que esse que vos escreve se apaixonou. Me visto dessa identidade masculina, pois se meu lado feminino conduzisse esse pequeno relato (espero que seja pequeno, e será se a mulher em mim se manter afastada) ele se resumiria a uma tragada de metáforas e alguns pingos sortidos especialmente escolhidos para borrar essas páginas.

Catarina era, simplesmente era. E me olhava, ela sempre me olhou e apenas isso. Mas ora! Como apenas? Bastava Catarina me olhar para que o calafrio na espinha me tomasse e numa fração de segundos descesse minhas pernas, envolvesse meu pescoço, arrepiasse meus pelos. Era um duelo. Uma disputa do que queria e do que tinha. Um duelo imaginário, onde imaginava que o arrepio que me tomava eram os braços finos de Catarina.

(Quero me desculpar se cansas de ler “Catarina”. Mas o fato é que não consigo chamá-la de outra forma. Me esforço e sofro internas represálias ao falar “ela” e não encontro adjetivos nem substantivos para substituí-la por completo. Me esforçarei, mas peço paciência, apenas paciência, e caso não a tenha em demasia eu não só entendo como perdôo.)

Toda minha história com Catarina pode ser facilmente resumida num instante. O instante de um afogamento. Os eternos segundos de quando se está embaixo d’água. O mundo corre e você sente o amorfinado gosto de vida sufocada. Catarina chegou. Olhei. Suspirei e na distração perdi o ar. Na minha incapacidade Catarina chegou. Me olhou. Olhei. Fechei os olhos. Senti o primeiro dos calafrios. Mesmo estando do lado contrário da calçada, a senti em mim. E me senti grávida de Catarina.

Eu a vi virar a esquina sem se despedir, apressada. Talvez tenha me visto louco. Ou me vestido assim. Bom, não sei como ela me afeta tanto, só sei que não se afetar é uma tarefa difícil e não invejo os capazes.

Sozinho, eu deitei. Sem perceber levei minhas mãos ao vente que não tinha. Mexeu. Tudo mexia, tudo vibrava. Catarina crescia, me tomava. Meu corpo deformava. Novamente fechei os olhos, mas ardiam. Contraí. Catarina nasceu. E a odiei por ter se plantando em mim.

(Amigo leitor, não se espante. Odiei – é verdade – mas é insignificante seu limite até amá-la. Eu fui usado e depois descartado, o que não impede de que, nesse meio tempo, tenha sido amado por Catarina.)

Agora tudo repele. O anseio vertiginoso por sentimentos mascarados, outrora outorgados, queima. Tudo repele. Por vezes mata, por vezes cura. Sentir é matar a sede de quem se afoga. O Encanto é um filete sem cheiro, embora dourado. O Amor, nem isso, nem menos.

Catarina me deu respostas quando o que eu mais queria era errar. Ela se deixou comigo para me inspirar, e na verdade eu apenas queria seguir meus impulsos.

O que aprendi? Amigo leitor, aprender é ter consciência do que se sabe, e eu nem sei nem tenho consciência. Brinquei de esconde-esconde com Catarina. Mais fácil seria me encontrar Deus, e muita gente ainda tenta… Então mantenho minhas esperanças de reencontrar Catarina. Esperanças são o café amargo e o pão sem manteiga que mata a fome. E sustenta. No fim? No fim acaba.



Viva, mas morra.



meados de 2008